Alfaiates do Tempo: por dentro do Instituto Português de Relojoaria

Captação e Edição - Nuno Patrício - RTP

Alfaiates do Tempo: por dentro do Instituto Português de Relojoaria

Num mundo dominado pelo digital e pela velocidade, há quem escolha abrandar. No Instituto Português de Relojoaria, em Lisboa, alunos de todas as idades aprendem a desmontar e montar relógios mecânicos peça a peça, numa busca por precisão, paciência e um tempo que não se mede em cliques, mas em gestos minuciosos.

Pedro Falcão sustém a respiração antes de pousar a pinça. À sua frente, uma peça metálica com menos de um milímetro pode saltar a qualquer instante da bancada branca. A lupa amplia o gesto, mas não perdoa o erro. Se a peça se perde, perdem-se também minutos — às vezes horas — de trabalho.


Durante anos, Pedro criou mundos digitais onde o tempo podia ser reiniciado. Nos videojogos, o erro corrige-se: apaga-se, recomeça-se. Aqui, não. No Instituto Português de Relojoaria, o tempo obedece a outras regras.

Criador de videojogos de profissão, habituado a software, códigos e universos virtuais, foi durante a pandemia que sentiu necessidade de procurar algo diferente — mais físico, mais lento, mais real.

“Eu queria algo que fosse um pouco mais tátil. Encantei-me com a ideia da contagem do tempo e de como máquinas muito pequenas e muito precisas conseguem contar o tempo durante muitos anos e tudo isso foi muito fascinante para mim”, conta.

Hoje, passa horas inclinado sobre a bancada. Umas vezes, de lupa no olho e pinça na mão; outras, na calibragem minuciosa dos relógios.

À volta, o silêncio. O som metálico das ferramentas mistura-se com o tic-tac distante dos relógios de parede. Ninguém desliza o dedo num ecrã. Aqui, cada gesto exige presença total.

Num jogo, pode errar cem vezes. Aqui, se falha, desmonta, limpa e começa de novo. Não há “voltar atrás”.

Grafismo RTP

Perder peças faz parte do processo. Pedro levanta-se do chão depois de procurar, com a ajuda dos colegas e de uma pasta magnética, um fragmento quase invisível.

“A gente perde muitas peças e tem que ficar procurando no chão”, diz, sorrindo. Algumas reaparecem. Outras, parecem evaporar-se. Como estas, são dezenas as peças que se perdem e reencontram ao longo de uma aula.

O momento mais exigente chegou na lubrificação dos rubis — componentes microscópicos essenciais ao funcionamento do relógio. A quantidade de óleo tem de ser exata. A margem de erro é mínima.

“Errei 20, 30 vezes. Tive de desmontar, limpar e voltar a tentar”, recorda Pedro.

Em dezembro do ano passado, terminou o primeiro relógio montado sozinho. Levou-o para casa.

“Parece só um relógio, mas ali estão dezenas de horas de treino. Deu-me um orgulho enorme.”

Pedro não pretende tornar-se relojoeiro profissional. Quer transportar esta experiência para o universo que conhece melhor: criar um videojogo onde os jogadores possam fazer aquilo que ele aprende no Instituto Português de Relojoaria - desmontar, montar e compreender um relógio por dentro — aproximando dois mundos aparentemente opostos.

“Quero levar esta experiência para o mundo dos videojogos”, explica. Um projeto que espera desenvolver em conjunto com a esposa.

Imagem: Instituto Português de RelojoariaOs fazedores de Máquinas de Tempo 


Histórias como a de Pedro multiplicam-se no Instituto Português de Relojoaria, localizado numa das ruas sobranceiras ao Tejo, na freguesia da Ajuda. Fundado em Lisboa e criado para preservar e transmitir um saber técnico tradicional, o Instituto tornou-se também um espaço de refúgio para quem procura afastar-se do ritmo acelerado do digital.

Na sala, doze alunos trabalham lado a lado. Vestem batas brancas, ajustam lupas, inclinam-se sobre mecanismos abertos. O silêncio é parte da aprendizagem.

Nas paredes, relógios antigos marcam um tempo que parece correr a outro ritmo.

“Ao contrário do que seria de esperar, eu acho que é muito, muito entusiasmante. Porque existe esta ideia generalizada de que a relojoaria é uma arte em vias de extinção (…) Parece-me que vai acontecer precisamente o oposto. Nós sentimos que há cada vez mais interesse, muito, porque é uma alternativa ao mundo digital”, explica Nuno Margalha, diretor e fundador do IPR.

O fundador do IPR afirma ainda que é dentro das paredes do Instituto que os alunos conseguem encontrar uma fuga ao mundo digital que nos rodeia atualmente.

“Os relógios deixaram de ser tão sérios. Há cada vez mais relógios divertidos e há cada vez mais uma área onde as pessoas vêm para se divertir. Os nossos alunos raramente nos procuram para seguir uma via profissional. Para isso existe outra escola”, acrescentou Margalha.

No Instituto Português de Relojoaria, em Lisboa, alunos de todas as idades aprendem a desmontar e montar relógios mecânicos. Para muitos, o momento mais gratificante surge após a primeira montagem, e ver o mecanismo trabalhar.



Psicólogo de formação, Margalha encontrou na relojoaria um território inesperado onde é possível cruzar precisão técnica, concentração e bem-estar.

A relação com o tempo começou cedo. Em criança, passava horas na cabine de projeção de um cinema onde o avô trabalhava, fascinado pelo relógio de bolso do projecionista e pelo mecanismo que, por vezes, lhe era revelado. 

Estudou engenharia mecânica antes de seguir psicologia e trabalhou cerca de duas décadas como psicoterapeuta.

O reencontro com a relojoaria aconteceu há cerca de dez anos, quando um manual técnico- Manual do Aprendiz de Relojoeiro- lhe despertou novamente o interesse pelo funcionamento das máquinas... e pelo tempo.

Grafismo RTP

Percebeu então, que a relojoaria não se aprende à distância. Foi essa constatação que o levou a procurar o mestre Paulo Anastácio e a idealizar um curso presencial pensado para colecionadores e entusiastas, dando origem ao Instituto Português de Relojoaria.

 
O Instituto oferece um curso anual, pensado para quem tem outra profissão. As aulas decorrem em horário pós-laboral e aos fins de semana- sinal de que este regresso ao trabalho manual não é, na maioria dos casos, uma escolha profissional, mas pessoal.

A primeira turma esgotou em 48 horas. Atualmente, existem três turmas em Lisboa e uma no Porto, com mais de 180 pessoas em lista de espera.
Grafismo RTP 

“Os colecionadores de relógios em Portugal estão muito sedentos de conhecimento. Vivemos demasiado tempo ligados ao mundo digital”, afirma Margalha. “Aqui, as pessoas encontram uma ligação ao mundo analógico.”

Além da formação regular, o IPR organiza uma feira de relojoaria vintage e um salão independente dedicado ao setor, o Tempo Futuro, afirmando-se como um polo ativo de encontro entre profissionais, colecionadores e entusiastas.

Na sala de aula, o erro não é virtual. Cada peça tem um lugar preciso.

“Eu achei que não tinha paciência… Quem venha para aqui achar que tem paciência, vai ter de rezar muito mais paciência do que aquela que tem”, diz João Estrada, médico pediatra reformado e aluno do curso. Habituado a máquinas e metodologias rigorosas, encontrou na relojoaria um exercício inesperado de paciência.

À sua frente, dezenas de peças microscópicas organizadas em pequenas caixas azuis, iluminadas por candeeiros articulados.

João Estrada traz consigo relógios antigos e uma memória familiar ligada ao ofício. “Tenho uma série de relógios em casa, nomeadamente de bolso, com mais de cem anos e algum receio de lhes mexer”, disse.

Tempo que não passa só pelos relógios, que diga o aluno mais velho da turma, João Neto, em que o momento mais marcante surgiu depois da primeira desmontagem completa — quando o relógio volta a funcionar: "foi quando consegui terminar a montagem do primeiro relógio”, explica sorrindo.

Habituado a lidar com relógios mecânicos, João Neto cresceu numa família numerosa, com 14 irmãos e ganhou gosto pelo ofício desde cedo, influenciado pelo irmão mais velho, - que outrora também fora aprendiz de relojoeiro.

O que o trouxe ao Instituto foi a vontade de compreender o funcionamento dos relógios e cuidar da coleção que pretende deixar ao filho.

“Eu finalmente tinha acabado de encaixar, fechar e tudo e aí então foi muito gratificante (…) Deu um calor no coração”, reforça Pedro Falcão.

Entre os alunos, há um consenso: um dos momentos mais gratificantes do percurso acontece depois de desmontar um relógio pela primeira vez, voltar a montá-lo e vê-lo novamente a funcionar. Um instante silencioso, mas carregado de significado, que confirma a aprendizagem feita com as mãos.

Mais do que aprender técnica, os alunos descrevem o curso como um exercício de concentração e disciplina. Trabalhar devagar, aceitar o erro, recomeçar. Num tempo que privilegia rapidez, aqui aprende-se a respeitar o ritmo das coisas.

No centro da aprendizagem está o mestre relojoeiro Paulo Anastácio. Para ele, a habilidade essencial não se traz de casa- constrói-se.

“Há sempre a paciência, que é o que toda a gente reconhece. Mesmo quem não está na arte, diz assim: ai, nunca teria paciência para isto. Claro que teriam, ou seja, é a paciência. Não tem de trazer a paciência, tem que realmente ganhar”, afirmou o mestre.

O mestre Anastácio enumera outras competências necessárias ao ofício, entre elas, a destreza e a concentração. Alguns já vem com estas apetências, outros ganham-lhas.

O Mestre assume um papel central na transmissão do conhecimento. Muitos dos seus antigos alunos trabalham hoje no estrangeiro integrados em marcas internacionais com conhecimentos muito aprofundados, e, em alguns casos, já detêm mais conhecimento técnico do que o próprio mestre.

O agora mestre, foi outrora aluno, e explica a importância da transmissão do conhecimento.

“Ver quer em jovens, e às vezes estou a falar porque também dou a jovens de 15 a 16 anos, ou até adultos com 60 a 70 anos, saber que entram com muita curiosidade, mas que não conseguem evoluir sozinhos. E, de repente, com o método e com os meus conhecimentos, que também alguém fez em mim, eu consigo fazer com que eles possam evoluir. E isso é muito, muito gratificante. 

Les Tuga

Além das aulas, o trabalho manual ganhou também forma própria. O Instituto decidiu criar uma marca nacional e lançar o Les Tuga, apresentado como o primeiro relógio de pulso português.

A ideia surgiu da constatação de que, apesar de não existir uma marca nacional reconhecida, há mão-de-obra portuguesa altamente qualificada a trabalhar para grandes fabricantes internacionais — sobretudo na Suíça, onde entre “20 a 30 por cento dos trabalhadores das fábricas de relojoaria são portugueses”, explica o diretor do IPR.

“O nome do relógio é uma homenagem por um lado e uma piada pelo outro. Chama-se Lê Tugá, ou seja, Lês Tugas”, explica Nuno Margalha.

Concebido e produzido quase integralmente em Portugal — da caixa à correia, das gravações ao mostrador — este relógio é também uma afirmação simbólica: provar que o conhecimento técnico existe e pode traduzir-se num objeto final com identidade própria.

Um relógio que os criadores pretendem que seja  mais do que um marcador de tempo, podendo este ser personalizado, com número de série e mensagem gravada, reforçando a ligação entre o objeto, o tempo e quem o usa.

Foto: Instituto Português de Relojoaria

O reconhecimento começou a ultrapassar as paredes da escola. Este ano, o Instituto foi convidado a associar o Les Tuga às comemorações dos 90 anos do Navio-Escola Sagres, numa possível edição especial evocativa da embarcação. 

Mais do que um acessório, o relógio representa a materialização de uma ideia que atravessa o Instituto: recuperar o valor do saber manual num tempo em que quase tudo é virtual. 

Se muitos procuram ali um refúgio do digital, o Les Tuga é a prova de que esse regresso às mãos pode gerar criação, indústria e identidade.

Mas apesar de ajudarem a construir máquinas de tempo a pergunta impõe-se: o que é o tempo? Para o mestre Paulo Anastácio, “o tempo é aquilo que nós demoramos, de acordo com as situações, a usufruir do acontecimento”. Para Nuno Margalha, é o “decorrer dos acontecimentos”, algo que todos sentimos, mas poucos conseguem definir.

Sem que se dê conta do passar do tempo, a aula deste dia dá repouso às lupas e peças regressam às caixas. Batas brancas penduradas, os aprendizes de relojoeiro voltam a ser o homem normal, onde os telemóveis vibram e o trânsito acelera.